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EDIÇÃO 11 16 de julho de 2004
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TRAGICIDADE NO "NAVIO NEGREIRO", DE CASTRO ALVES

Ângelo Grisoli
Formado em Letras, em 2003, e pós-graduado em Língua Portuguesa, pela Estácio de Sá – Campus Rebouças
Mestrando em Teoria da Literatura, pela UFRJ

Ler Castro Alves é como passear por entre mares de sofrimento nos quais a linguagem e o pensamento nos servem como bússola. O poeta inaugura uma travessia na poesia brasileira, adentrando num mundo fragmentado e restituído de sentido através da dor. Por mais paradoxal que pareça a assertiva anterior é assim que, em nós, o projeto artístico do poeta ressoa: tal como uma angústia libertária a qual manifesta sua presença na alteridade da paixão e da indignação do olhar do lírico perante o absurdo.

Em primeiro plano, é inegável, o convite do poeta a nos reportar, enquanto leitores, para o quadro situacional dos escravos quando, na abertura da primeira parte da tragédia poética, Navio Negreiro, o poeta baiano nos diz: "Stamos em pleno mar... Doudo no espaço". Embora não possamos afirmar que a poesia castroalvina tenha sido elaborada com raízes plantadas no solo da teoria da recepção, parece-nos de clareza solar o diálogo entre o texto e a teoria. Por esse viés, suas palavras sempre falam mais do que aparentemente transparecem, guiando-nos ou convidando-nos a vivenciar experiências bem difusas.

Há um processo contemplativo em Castro Alves, cuja atmosfera espelha a imensidão do mar e do céu, com todas as suas ondulações, constelações e estrelas, num movimento de recriação da atmosfera escravista. A esse panorama, cadenciado pela música dos ventos, pela sensação de distância da terra pátria e por um sentimento, sobretudo, de liberdade refreada, adiciona-se um mal-estar sensível, a cólera de um povo esmagado pela eurocentralização do poder.

Nesse sentido, a metáfora do albatroz – "águia do oceano" – serve-nos, a título de exemplificação, como paradigma do desejo de libertação, remetendo-nos ao poetar condoreirista de Victor Hugo, que tanto se aplicava como pano de fundo de uma severa crítica social, como também propunha um olhar de travessia do espaço reclusivo do cerceamento escravista. É o que no diz o trecho abaixo:

Albatroz! Albatroz! Águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

O mar figura, nesta parte inicial, por meio de um esquema de imagens que contém elementos norteadores de uma leitura fortemente evasiva. O anseio pela escapatória, associado ao gosto pela contemplação da natureza e o trovejar de delírio e angústia, num apelo a um vôo que excede a tragicidade do escravo, dão ensejo a um sentimento singular de libertação.

Levantando questionamentos por todo o texto, o eu-lírico exalta sua liberdade de pensamento, representando a insatisfação do oprimido que emerge do "brigue imundo", consoante e sob o efeito inverso dos abismos do destino. Buscando uma resposta que justifique suas vicissitudes, anseia por uma réplica inalcançável, cuja irrealização afasta de si mesmo, num gesto de desespero, a própria embarcação dos sofrimentos: "Por que foges assim, barco ligeiro? / Por que foges do pávido poeta?".

Há, no início da 2ª parte do poema, um renovado questionamento que sublinha uma renúncia do ufanismo nacionalista: "Que importa do nauta o berço, / Donde é filho, qual seu lar?". Acentua-se a partir daí um novo instante de reflexão do poeta, ou seja, o momento que este projeta sobre a terra um foco de saudosismo, embora brevemente recortado pela descrição das pátrias européias: fala da tradição saudosista do europeu através de pequenos fragmentos de memória da Espanha, da Itália (especificamente Veneza) – a qual num breve relance refere-se como "... terra de amor e traição".

Faz referência explícita à Inglaterra por meio da frieza do seu marinheiro que pode, outrossim, servir como forma de análise crítica da frieza emblemática desse povo. Outra menção indispensável se dá em relação à França, acentuando sua predestinação: cantar os louros de antigamente e os que estão por vir. Conclui este 2º trecho, conclamando o mundo grego e a música como símbolo da melodia dos céus por meio de figuras simbólicas da arte helênica como Homero, Fídias e Ulisses.

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu!...

 

A 3ª passagem do poema, por certo a mais curta, assinala uma retomada declamatória do poeta, cujo vigor aponta novamente para a metáfora do albatroz, aclamando sua descida: "Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!". No entanto, passa a assumir, no segmento dos versos, uma postura de espanto ou estremecimento frente ao "... quadro d'amarguras" que se apresenta aos seus olhos atentos. Brada pelo mito de Deus por ele também questionado, quando é atingido pelo torpe cenário de horror agenciado pelas violentas cenas do navio negreiro: "Que cena infame e vil...Meu Deus! Meu Deus! Que horror!".

Na 4ª parte do poema, o eu-lírico enceta um processo de descrição poética da barbárie que, lembrando de maneira saudosa o "sonho dantesco", perdido no espaço, agora passa a mimetizar o absurdo cotidiano dos escravos que ocupam o navio dos sofrimentos de maneira que todos aqueles que compõem seu desvanecido quadro de horror estejam inclusos em sua dor existencial transcendente.

Certamente, esse é o momento de maior exaltação do poema, uma vez que é produzido um amálgama de imagens chocantes. Ao mesmo tempo, "legiões de homens" e mulheres "negros como a noite" se empilham banhando-se em sangue e arrastando-se como entulhos. O poeta ressalta um aprisionamento comum a todos os escravos famintos que ali mesmo gritam, choram e dançam num misto de ações e conflitos.

Castro Alves delineia um quadro de pavor que finda, ironicamente, a concluir que esse triste desenho da realidade humana é motivação de gargalhadas por parte de Satanás: "Gritos, ais, maldições, preces ressoam! / E ri-se Satanás!..."

A 5ª parte do poema pode ser considerada uma grande alegoria do inconformismo perante tamanha sensação de dislate. Conforme a parte final desse trecho, observamos um questionamento frontal de Deus, pois o "eu interrogante" questiona, implacavelmente, a divindade. Não aceita de forma alguma a tragicidade do destino dos escravos. Sob esse prisma, problematiza o poder, percebendo uma mancha de infinito horror no universo humano frente à passividade de um Deus que nada faz para modificar a realidade. Conclui essa parte questionando a esfera mítica:

"Senhor Deus dos desgraçados!".
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se eu deliro.... se é verdade
Tanto horror perante os céus!?
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestade!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!...

A 6ª parte do Navio Negreiro representa uma crítica final. Depois de já ter cantado, com toda sua expressividade e sensibilidade, a indescritível violência a que os escravos são submetidos, passa a caminhar, portanto, em direção à reflexão final. O poeta analisa de forma arrebatadora a realidade brasileira, descrevendo, com um forte senso humanístico, a miséria a que os negros são submetidos. Frente ao abandono forçado de sua terra, a saudade cede lugar ao cataclismo. Na última parte do poema, brada pela extinção do "brigue imundo" quando, por fim, profere, de maneira exclamativa e apaixonada, por "Andrada! Arranca esse pendão dos ares! / Colombo! Fecha a porta dos teus mares!".

Percebemos que o erotismo em Castro Alves surge revestido de uma poderosa armadura crítica, uma vez que além do poeta valorizar a não aceitação do real, pois não suporta a condição subumana dos escravos, deflagra um sentimento de total perplexidade. O mar e a terra estabelecem um nexo que ora apresenta o trágico, ora apresenta a paixão, enquanto afirmação de um desejo de mudança. A saudade atua como emblema de sobrevivência da memória de um povo que fora arrancado de sua terra sem ser questionado sobre sua vontade: uma via de reflexão que transcende o óbvio movimento da cultura descritiva, aproximando-nos de um campo argumentativo que não aceita passivamente o tempo congelado da escravidão.

O caminho do bardo, que dedicou sua curta vida (pois morreu aos 26 anos) às questões sociais, dimensiona e espacializa o pensamento para além do momento de ebulição que vivera, uma vez que continuamos a fazer parte do mesmo brigue imundo dos escravos de outrora. A diferença é que as fantasias e adereços são outros: o chicote é curricular, os escravos vestem paletó e gravata e os navios são controlados por máquinas cada vez mais sofisticadas que, brevemente, substituirão seus comandantes.

A poesia de Castro Alves nos mundifica, nos faz imaginar maneiras inusitadas de nos transportar, mesmo que metaforicamente, para um topos essencial, percebendo a dor do escravo como nossa. A verdade dos horrores de uma cultura brasileira composta por africanos assujeitados e índios desterrados. Sua "tragedio sur maro" convida-nos a ser no tempo da linguagem subjetiva de seus versos mais do que saudosos errantes, dotados de um infinito desejo de simbiose, mas sim portadores de uma indignação secular e dionisíaca. Faz-nos, logo, entender o vigor daquilo que brota na terra, floresce no ser e permanece na e da poesia.

Chorai, orvalhos da noite,
Soluçai, ventos errantes.
Astros da noite brilhantes
Sede os círios do infeliz!
Que o cadáver insepulto,
Nas praças abandonado,
É um verbo de luz, um brado
Que a liberdade prediz.

BIBLIOGRAFIA

CALMON, Pedro. Castro Alves, o homem e a obra. 3ª ed., Rio de Janeiro: José Olympio, 1973.

DERRIDA, Jacques. Del Espíritu. Heidegger y la Pregunta. Tradução de Manuel Arranz, Valencia: Pre-Textos, 1989.

HABERMAS, Jürgen. Perfiles filosófico-políticos. Madrid: Taurus, 1984.

HEIDEGGER, Martín. Ser e tempo. Tradução e notas: Márcia de Sá Cavalcanti, Petrópolis: Vozes, 1985.

HORCH, Hans J. Bibliografia de Castro Alves. Rio de Janeiro: INL, 1960.

MARQUES, Xavier. Vida de Castro Alves. 2ª ed., Rio de Janeiro: Anuário do Brasil, 1924.

PEIXOTO, Afrânio. Castro Alves, o poeta e o poema. 3ª ed., Rio de Janeiro: Jackson, 1944.

Endereço para correspondência:
angelogrisoli@yahoo.com.br