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EDIÇÃO 11 16 de julho de 2004
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ENTREVISTA COM A ESCRITORA ANA PAULA MAIA

Por Fábio Fabretti

Ela é carioca. Tem apenas 26 anos e soma um romance publicado; uma peça, até recentemente, em cartaz e novos projetos em andamento. A inquieta garota que ouve ABBA e Sex Pistols, devora filosofia e acredita em Deus, já foi muito e pouco amada pela crítica. Agora, com exclusividade para o REDE DE LETRAS, Ana Paula Maia diz ao que veio.

1. Você é jovem e já decola uma carreira literária. Antes, entretanto, percorreu alguns caminhos. Primeiro, graduou-se em Informática e depois em Publicidade, na Estácio de Sá. Tocou em uma banda de rock e mergulhou fundo no oceano filosófico. Como foi esse processo até chegar às letras?

Antes de começar escrever, meu interesse era a música e passei parte da minha adolescência tocando bateria numa banda de punk rock, indo e fazendo shows. Até que cansei de toda aquela doideira e sosseguei. Esbarrei-me com Platão, apaixonei-me por filosofia, estudei piano clássico por uns 3 anos e por ordens médicas parei por causa de um pequeno surto. Ele disse que eu deveria ir mais devagar e diminuir o número de atividades. Foi aí que comecei a escrever. Meu primeiro texto foi um roteiro de curta-metragem chamado "O Entregador de Pizza", que foi filmado em 2001, com Cândido Damm, Isadora Ribeiro, Ricardo Petraglia e Antônio Pedro. Ainda está em fase de finalização e acredita-se num eclipse fenomenal no dia em que ficar pronto. Foi a primeira coisa que escrevi e a primeira vez em que pisei num set de filmagem. Trabalhávamos 14, 16 horas por dia e tudo para realizar aquele filme e eu estava completamente perdida. No final de 2001, recebi o convite do ator Ricardo Petraglia para assinar a co-autoria de um monólogo em comemoração aos seus 35 anos de carreira e lá fui eu, com a peça O rei dos escombros, pouco antes do lançamento do meu livro.

2. Dante Dorfman, na revista VIRTUAL RABISCO, incluiu-a elogiosamente na crítica "Mulheres à beira de um ataque de letras", abordando a produção feminina do novo século, junto de Clarah Averbuck e Simone Campos. Em contrapartida, um outro crítico a apelidou de "bizarra". Como lhe soa esses dois extremos, o de ser amada e odiada pela arte que faz?

O sujeito só me acha bizarra, não me odeia. Nunca tinha pensado nesse adjetivo, mas acabei por incluí-lo na minha lista de apresentação. A raiz do problema? Especulemos: Eu assisti demais a filmes de terror. Minha mãe acreditava que eu teria alguns problemas por causa disso. Quando eu tinha 10 anos, meus pais compraram um vídeo cassete e eu passei a almoçar com Sexta-feira 13, A noite das brincadeiras mortais, Pague para entrar e reze para sair, A hora do pesadelo e A hora do Espanto, enquanto minha avó balbuciava orações pela casa, porque ela acreditava que aquelas imagens invadiriam toda a casa com más influências. Era uma criança aparentemente comum, mas que não tinha medo do escuro e desde os cinco anos assistia a todos os filmes trash que passavam nas noites da década de 80. Fui uma criança feliz. Minha mãe não conseguia me impedir de assisti-los. Deu nisso. E depois, quem tem a cara de pau de publicar, tem que ter a mesma cara de pau para receber qualquer tipo de comentário, sem, com isso, levar para o lado pessoal ou perder o brilho do óleo de peroba!

3. Autores novos sofrem certos pré-conceitos no meio editorial. Você enfrentou muitas dificuldades na publicação do seu primeiro livro, "O habitante das falhas subterrâneas", na coleção Rocinante, da 7 Letras?

Dizer que o mercado está complicado é redundante. Escrevi o Habitante em 2002, numa empreitada alucinada. Eu tinha dois meses e meio para fazê-lo antes que minhas férias terminassem. E foi exatamente o que fiz. Terminei o monólogo e emendei no livro. Estávamos em pleno racionamento de energia e eu suava em bicas na frente do computador, mas fui em frente. Só saí do quarto com o livro pronto. Comecei a mandá-lo para várias editoras, atirando no escuro, até que enviei para a 7 Letras que se interessou pelo material e "pimba", publicaram.

4. Você fez um trajeto diferente de certos autores atuais que começam publicando na Internet.

Hoje, os novos autores têm a (santa) Internet como veículo para publicarem, o que é ótimo. Mas, o concreto e palpável livro impresso é o que oficializa. Eu comecei no cinema, fui para o teatro e depois para a literatura. Diria que foi a vontade de escrever romances que deu início a tudo.

5. Todo escritor é onipresente, onipotente, onisciente e assexuado. Porém, através dos seus vários escritos, é nítida a sua forte atração em criar e dar vozes a personagens masculinos. Como é para você o fato de ser mulher e não falar exclusivamente da alma feminina?

A alma feminina é histérica e confusa. Durante uma semana por mês, eu sou assim. Escrevi um conto chamado "Nós, os excêntricos idiotas", com uma alma feminina em primeira pessoa e tive certeza disso. Gosto do meu oposto e me identifico mais com ele. Sem contar que é um ótimo exercício de estilo, que para mim flui muito bem. Sempre li livros escritos por homens, filmes feitos por eles, músicas, quadrinhos, filosofia. É homem demais na cabeça. Deu nisso. Acho bem mais complicado esmiuçar o universo feminino com todas as suas sutilezas, o que para mim, soaria como um exercício e tanto.

6. Poderia falar sobre Ariel Esperanto, o personagem central do seu romance – um adolescente de dezessete anos conflitado com o caos urbano que o cerca – e a respeito do título do seu livro?

O título vem de uma passagem do livro Viagem ao Centro da Terra, do Júlio Verne. Quando o jovem Axel se encontra sozinho e perdido dentro de um vulcão, prestes a entrar em erupção, ele decide avançar ainda que não consiga enxergar nada devido à total escuridão, ainda que se machuque nas saliências das rochas, caindo e erguendo-se ensangüentado. É uma passagem, para mim, carregada de simbolismo e sem dúvida o que melhor resume o que sente Ariel. Taí um dos motivos para o nome, a semelhança entre Axel e Ariel. (O nome Ariel é também uma sutil analogia ao Ariel de A Tempestade, de Shakespeare). Ele é o habitante das "falhas subterrâneas" que são as nossas falhas, enterradas na alma. Ariel, apesar de confuso no momento presente, tem muita consciência do que o espera. Apesar das contradições, Ariel é um grande otimista que acaba por ver o lado bom das coisas. É um garoto sensível que se importa com os outros. O problema é que ninguém parece se importar muito com ele.

7. Você disse que o livro "O apanhador no campo de centeio", de Salinger serviu de suporte para a construção de "O habitante das falhas subterrâneas". Quais outras referências lhe serviram para a elaboração da trama e dos personagens?

Construo personagens a partir das coisas que me cercam. E não são poucas. Há muito para se ver, analisar, questionar. Aprendi isso lendo filosofia, que foi o meu start para começar a escrever. Tento não fazer vista grossa. Aproprio-me de tudo o que está ao meu alcance. Se couber nas histórias, ótimo. Acho que minhas referências estão mais no cinema do que na literatura. Mas é na literatura que as dimensões são mais fortes e nisso ela é imbatível. Vou de Fritz Lang a Quentin Tarantino num pulo. No teatro, leio mais peças do que assisto. Gosto do Shakespeare, do Elias Canetti, do Nelson Rodrigues. Ouço, além das bandas outrora citadas, Grieg, Josepfine Baker, Elvis Costello, Echo and The Bunnyman, Ramones, Louis Armstrong, Cake, Cássia Eller, Sisters of Mercy, Billy Holiday e Duke Ellington. Já está de bom tamanho.

8. Os demais personagens que cerceiam Ariel não fogem à regra, afundados em seus próprios desertos e vivenciando problemas concretos e existenciais. Eles representam a queda e a decadência social?

Acho que o drama vivido por todos eles foi apenas deslocado para outra época e lugar. São todos humanos e carregam em si, todas aquelas características e instintos inerentes aos homens. A crise sempre existiu e sempre existirá... talvez seja por esse motivo que há escritores. Seres em crise. O quanto você se importa com os outros? Acho que um dos maiores problemas do mundo contemporâneo está justamente nessa pergunta. O drama vivido pelo protagonista, em boa parte é por causa do drama dos outros.

9. É um romance confessional?

Apesar de o Ariel e eu termos inegavelmente muita coisa um do outro, não só certas apreensões do mundo como também certas experiências pessoais, não é um romance nada confessional. Debrucei-me sobre a ficção, abarquei algumas experiências, imaginei outras e misturei tudo às referências do universo pop. Universo esse que é ainda mais significativo para o personagem do que para mim, pois o mundo em que ele vive ainda não lhe permitiu muitas experiências e vivências, o que faz com que ele se baseie, então, na realidade que o cerca.

10. Um dos seus futuros projetos literários envolve uma publicação da Editora Record, que lançará a antologia "25 Mulheres que estão fazendo a nova literatura", organizada pelo escritor Luiz Ruffato. Você faz parte desse quartel que integrará o livro. Luiz Ruffato alegou, no Caderno Cultural, do ZERO HORA, que "não existe literatura feminina, e sim literatura". Na sua opinião, há um papel diferencial entre ser escritor e escritora?

É mais ou menos aquele papo sobre dar vozes a personagens masculinos. Definitivamente, não existe isso. Concordo com o Dante Dorfman, no artigo, "Mulheres à beira de uma ataque de letras", quando afirma que não há sexo que necessariamente defina qualidade na literatura, quando a questão principal é empatia. Claro, que respectivos sexos abordam o universo de respectivos sexos. Acho que é assim que flui com a maioria. Eu gosto da ficção, da experimentação. Consigo dessa forma, me distanciar do meu cotidiano, e criar outras possibilidades para mim e conseqüentemente para personagens.

11. E a sua peça, "O rei dos escombros"?

O Rei dos Escombros é um monólogo-rock assinado por Ricardo Petraglia, Mauro St. Cecília e eu. O Ricardo me convidou para escrevermos e tudo o que eu tinha feito até aquele momento, foi o roteiro de um curta-metragem, em que o Ricardo trabalhou. Ele gostou daquele texto e me chamou para escrever a peça. Fomos até a metade, um pouco mais talvez. Tempos depois, o Mauro, deu continuidade e conclusão. A produção foi muito legal e a direção do Moacyr Chaves, idem. As músicas da peça foram gravadas por Frejat e Seu Jorge. Um mês depois da estréia, veio o lançamento do livro.

12. Que conselhos você daria a quem pretende embrear-se no mercado editorial?

Falou bem, embrear-se. Porque é justamente isso. Embrear, segundo o dicionário: acionar a embreagem do automóvel, ligando a força do motor ao eixo de transmissão. Ou seja, "meta a cara, malandro"!

O ator Ricardo Petraglia no monólogo cômico de Ana Paula Maia, dirigido por Moacir Chaves, no Teatro do Sesi.
O livro lançado pela 7 Letras: fragmentos existenciais.