Universidade Estácio de Sá Entre no Campus Virtual

EDIÇÃO 11 16 de julho de 2004
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LANÇAMENTOS LITERÁRIOS

Flávia França
Aluna do 4º período de Letras – Campus Méier

PAULÍSTICA ETC.
Paulo Prado

Editora: Cia. das Letras
Número de páginas: 400

Organizador da Semana de Arte Moderna de 1922, o empresário Paulo Prado também empreendeu a recuperação do passado da cidade em que o movimento modernista eclodiu. Paulística Etc., livro publicado em 1925 e ampliado em 1934, é uma história de São Paulo desde os primeiros esforços de colonização e povoamento – o "misterioso" século XVI – até o momento de apogeu e crise da cultura cafeeira.

Os textos de Paulística Etc. saíram, previamente, em forma de ensaios no jornal O Estado de São Paulo. Paulo Prado, proeminente produtor de café, já tinha então 56 anos. Aprendera com o historiador Capistrano de Abreu, seu mentor intelectual, a fazer da história um instrumento de descoberta e compreensão do drama humano.

A despeito da parca documentação disponível, o autor faz um levantamento historiográfico minucioso e procura responder a perguntas decisivas para a constituição da epopéia paulista. O que pensavam os paulistas antigos, como os pioneiros João Ramalho e Fernão Dias? Que tribos indígenas enfrentaram os portugueses? Quem eram os homens da frota de Martim Afonso que aportaram em São Vicente?

Esta edição, revista e ampliada por Carlos Augusto Calil, traz textos inéditos: sucinta fortuna crítica ao livro, com cartas de Oswald e Mário de Andrade; artigos sobre Victor Brecheret e Blaise Cendrars; ensaios sobre o café e sobre o modernismo; textos que tratam de política e do caráter do povo brasileiro, antecipando o Retrato do Brasil (1928).

Em Paulística Etc., o passado de São Paulo encontra o presente de seu autor, um dos protagonistas dessa história, e projeta suas reflexões para o tempo futuro – aquele da São Paulo contemporânea.

ENSAIO SOBRE O TRÁGICO
Peter Szondi

Tradução: Pedro Süssekind
Revisão: Roberto Machado
Editora: Jorge Zahar
Número de páginas: 156

"Desde Aristóteles há uma poética da tragédia; apenas desde Schelling, uma filosofia do trágico." Assim o renomado teórico Peter Szondi abre esse Ensaio sobre o Trágico, obra pioneira que traça a distinção entre as orientações iniciadas por esses dois filósofos.

Dividido em duas partes, o livro começa por tratar o próprio conceito de trágico, comentando-o em textos filosóficos e estéticos escritos por 12 filósofos e poetas, como Schelling, Hölderlin, Hegel, Goethe, Schopenhauer, Kierkegaard e Nietzsche. A segunda parte analisa oito tragédias que representam as quatro grandes épocas da poesia trágica, entre elas: Édipo rei (Sófocles), A vida é sonho (Calderón de la Barca), Otelo (Shakespeare), Fedra (Racine), Demetrius (Schiller) e A morte de Danton (Büchner).

O livro é escrito com a clareza lapidar e a elegância habituais de Szondi e o leitor brasileiro conta ainda com um esclarecedor prefácio de Pedro Süssekind. Uma obra que não deve faltar na biblioteca de todos os interessados em filosofia, teatro e literatura de um modo geral.

"Esse livro é uma preciosidade. Poucos críticos são capazes de reunir um número tão significativo de grandes tragédias e importantes teóricos da tragédia em tão breve espaço. Szondi faz isso com maestria. Além de cativar o leitor, esse livro é um instrumento de ensino que traz a marca dos escritos de Szondi: enorme clareza sobre assuntos complexos. Ninguém substituiu Szondi em seu papel de intérprete teórico da literatura comparada."
Ian Balfour, York University

TÁBULA RASA
- A negação contemporânea da natureza humana

Steven Pinker

Editora: Cia. das Letras
Número de páginas: 688

Steven Pinker é um dos mais respeitados nomes da ciência cognitiva e dos estudos da linguagem aplicados à neurociência. Seus ensaios têm grande aceitação na comunidade acadêmica e também no público em geral. Em Tábula rasa, Pinker enfrenta o debate "natureza versus criação".

O autor ataca três dogmas fortemente arraigados na cultura ocidental: a idéia de que a mente de um recém-nascido é uma "tábula rasa" a ser preenchida pelos pais e pela sociedade; a concepção de que o homem em seu estado primitivo é um bom selvagem; e a crença de que a alma imaterial dotada de livre-arbítrio é a única responsável pelas ações do indivíduo.

O autor descreve a evolução histórica dessas três idéias, originadas respectivamente das concepções de John Locke, de Rousseau e da religião. Pinker demonstra como elas se estabeleceram de forma inquestionável até comporem uma espécie de "doutrina oficial", que hoje influencia não só a criação dos filhos, mas também a vida política.

Pinker recorre a autores como Darwin, Kant, Shakespeare e até a personagens dos quadrinhos, como Calvin e Haroldo, para defender a idéia de uma natureza humana alicerçada na biologia. Segundo essa concepção, o ser humano nasce equipado com um conjunto de informações genéticas que direciona o seu desenvolvimento. Em cada indivíduo, a natureza humana, regida pela biologia, sofre influências da cultura e da sociedade – e é da interação de ambas que resultam personalidade e comportamento.

"Arrebatador, erudito e divertido – e muito persuasivo" – Time

"Um livro extraordinário: claro, implacável e empolgante" – The Washington Post


A LITERATURA E OS DEUSES
Roberto Calasso

Editora: Cia. das Letras
Número de páginas: 160

O italiano Roberto Calasso é um dos grandes intelectuais europeus da atualidade. Romancista, ensaísta e crítico literário, é também diretor da editora Adelphi, de Milão, que renovou o panorama editorial da Itália do pós-guerra. A literatura e os deuses se compõe de oito ensaios originalmente apresentados como conferências na Universidade de Oxford em 2000. Nesses textos, Calasso faz um paralelo entre dois fenômenos aparentemente distintos.

De um lado, trata do ressurgimento dos deuses pagãos e orientais na literatura européia do século XIX. Por outro lado, aborda a eclosão do romantismo e do que Calasso define como literatura absoluta – que consiste na invenção formal em estado puro, sem compromissos com discursos extra-literários (sociais, políticos, filosóficos, religiosos).

Para Calasso, existe um fundo comum entre a experimentação da literatura absoluta e os deuses antigos, pois estes representam o contraste entre lei e caos, ordem e dissolução, criação e morte. O ensaísta mostra como os românticos (Schlegel, Hölderlin, Novalis) e os primeiros modernos (Baudelaire, Lautréamont, Mallarmé) utilizaram deuses como metáfora de um mundo que já não era visto de um ponto de vista racional, com princípios e finalidades reconhecíveis, mas que, ao contrário, transformara-se em fábula.

É esse mundo tornado fábula que a literatura absoluta tematiza com construções formais e ficcionais que, ao contrário de representarem a realidade, a reinventam – criando mundos à maneira dos deuses.


RESPONSABILIDADE E JULGAMENTO
Hannah Arendt

Tradução: Rosaura Eichenberg
Editora: Cia. das Letras
Número de páginas: 376

Reunião de ensaios da filósofa alemã sobre moralidade e responsabilidade em tempos de alienação e domínio da visibilidade. Arendt propõe uma ética no domínio público da ação e da política, destacando o papel da reflexão e da crítica como atividades intelectuais decisivas no mundo pós-totalitário.

A SOMBRA E O VENTO
Carlos Ruiz Zafón

Tradução: Márcia Ribas
Editora: Objetiva
Número de páginas: 464

Chega ao Brasil o fenômeno editorial que conquistou os leitores da Espanha e Alemanha e consagrou o espanhol Carlos Zafón como uma das maiores revelações literárias dos últimos tempos.

Em meio à profusão de títulos lançados a cada ano no mercado editorial, poucos conseguem conquistar ao mesmo tempo o público e a crítica. A sombra do vento, de Carlos Ruiz Zafón, é uma dessas raridades. Por mais de 60 semanas na lista dos livros mais vendidos da Espanha, onde seu sucesso o fez ser considerado um verdadeiro fenômeno literário, o romance repetiu o êxito na edição alemã, e já conquistou a crítica dos Estados Unidos, onde foi publicado no mês de abril.

A sombra do vento é uma narrativa de ritmo eletrizante, escrita em uma prosa ora poética, ora irônica. O enredo mistura gêneros como o romance de aventuras de Alexandre Dumas, a novela gótica de Edgar Allan Poe e os folhetins amorosos de Victor Hugo. Ambientado na Barcelona franquista da primeira metade do século XX, entre os últimos raios de luz do modernismo e as trevas do pós-guerra, o romance de Zafón é uma obra sedutora, comovente e impossível de largar. Além de ser uma grandiosa homenagem ao poder místico dos livros, é um verdadeiro triunfo da arte de contar histórias.

Tudo começa em Barcelona, em 1945. Daniel Sempere está completando 11 anos. Ao ver o filho triste por não conseguir mais se lembrar do rosto da mãe já morta, seu pai lhe dá um presente inesquecível: em uma madrugada fantasmagórica, leva-o a um misterioso lugar no coração do centro histórico da cidade, o Cemitério dos Livros Esquecidos. O lugar, conhecido de poucos barceloneses, é uma biblioteca secreta e labiríntica que funciona como depósito para obras abandonadas pelo mundo, à espera de que alguém as descubra. É lá que Daniel encontra um exemplar de A sombra do vento, do também barcelonês Julián Carax.

O livro desperta no jovem e sensível Daniel um enorme fascínio por aquele autor desconhecido e sua obra, que ele descobre ser vasta. Obcecado, Daniel começa então uma busca pelos outros livros de Carax e, para sua surpresa, descobre que alguém vem queimando sistematicamente todos os exemplares de todos os livros que o autor já escreveu. Na verdade, o exemplar que Daniel tem em mãos pode ser o último existente. E ele logo irá entender que, se não descobrir a verdade sobre Julián Carax, ele e aqueles que ama poderão ter um destino terrível.

A sombra do vento usa o cenário grandioso de Barcelona, com suas largas avenidas, seus casarões abandonados, sua atmosfera gótica e espectral, para ambientar um romance arrebatador que é também uma reflexão sobre o poder da cultura e a tragédia do esquecimento. A busca de Daniel marca sua transformação de menino em homem e desperta no leitor um fascínio renovado pelos livros e pelo poder que eles podem exercer. Ao ler A sombra do vento, o desejo que se tem é de, assim como o menino Daniel, abrir as portas do Cemitério dos Livros Esquecidos e descobrir em seus infindáveis corredores o livro que mudará nossas vidas.

Repercussão na imprensa estrangeira

Um presente para a fantasia
Por Michel Friedman, 7/12/2003

Existem livros que fazem sonhar, que são um presente para a fantasia. Quando alguém lê um livro como esse, sente-se bem, não quer ser incomodado por nada nem por ninguém, e deseja apenas mergulhar no mundo dos personagens. A sombra do vento é um presente assim.
Pelos olhos de um menino, o leitor é apresentado ao mundo dos livros.

O menino Daniel, cujo pai é dono de um sebo, tem a chance de se tornar dono de um livro esquecido, e escolhe o romance A Sombra do Vento. À medida que ele vai crescendo, ficam cada vez mais evidentes as semelhanças entre a vida desse jovem e a história contada no livro. Numa narrativa interessante, extremamente sensível e que prende a atenção do leitor, o livro conta uma história cheia de amor e sentimentos. Também tem papel especial no enredo o conflito político da época franquista, a atmosfera de medo do período da ditadura e a alegria proporcionada pela liberdade. Reserve dois dias e uma noite e deixe-se enfeitiçar por uma história fascinante, comovente e política. Perca bastante tempo com o capitulo final, que instiga ainda mais a fantasia e constitui uma pequena obra-prima dentro da obra-prima maior que é A sombra do vento.

Die Welt, Alemanha

CARLOS RUIZ ZAFÓN nasceu em Barcelona, em 1964. Em 1993, ganhou o prêmio Ebedé de literatura com seu primeiro romance, O príncipe da névoa, que vendeu mais de 150.000 exemplares na Espanha e foi traduzido em vários idiomas. Desde então, publicou quatro romances e transformou-se em uma das maiores revelações literárias dos últimos tempos com A sombra do vento, finalista dos prêmios literários espanhóis Fernando Lara 2001 e Llibreter 2002. O autor vive há sete anos em Los Angeles, onde escreve roteiros para o cinema e trabalha em um novo romance. Zafón colabora também nos jornais espanhóis La Vanguardia e El País.

Desde muito jovem, Zafón já tinha o dom de inventar histórias e era conhecido por assustar os colegas de colégio com seus relatos tenebrosos.

"Sempre fui fascinado pelo mundo dos robôs, das aparições, dos fantasmas, dos palacetes modernistas, dos túneis [...]. Na minha literatura, gosto de explicar histórias a partir de imagens, e misturo relato de intrigas, relato de aventuras, romance gótico e romance histórico não-realista. Acho tedioso dizer: 'Fulano está triste.' O que quero é fazer o leitor sentir a tristeza. Tecnicamente é mais complicado, mas dramaticamente tem mais força e é um desafio", diz o autor.

Ao mudar-se para os Estados Unidos, Zafón ficou chocado com "os enormes hangares cheios de livros antigos, verdadeiros tesouros, que estão virando supermercados e McDonald's". "Noto uma destruição da memória e toda uma indústria da falsificação da história para justificar o presente", afirma ele. Essa preocupação do autor permeia a narrativa de A sombra do vento, ambientado em uma Barcelona ainda não atingida pela sociedade de consumo. Zafón justifica a ambientação de seu romance em meados do século "por se tratar de um momento histórico fascinante onde a cultura da banalidade ainda não estava tão desenvolvida, e onde os ideais ainda eram importantes".

DICIONÁRIO DO NORDESTE
5.000 palavras e expressões

Fred Navarro

Prefácio de Marcos Bagno
Ilustrações de Cavani Rosas
Xilogravuras de J. Borges
Editora: Estação Liberdade
Número de páginas: 408

O livro possui mais de 5.000 palavras e expressões e pesquisa em mais de mil fontes, incluindo artistas como Ariano Suassuna, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Netto, Lenine, Gilberto Gil, Falcão, Chico César e Chico Science.

O livro começou como uma curiosidade pessoal do jornalista Fred Navarro, ganhou caráter jornalístico e depois evoluiu para um projeto mais ousado, com um número significativo de referências coletadas de um vasto universo composto de literatura de cordel, discos, livros e filmes, abrangendo toda a região nordeste, do Maranhão até a Bahia.

Até a finalização desse trabalho jornalístico independente, cujo objetivo foi o de reunir em um único volume parte considerável do acervo lingüístico daquela região, o autor passou oito anos pesquisando, checando informações, cruzando fontes, lendo dicionários e fazendo inúmeras viagens à região, em busca de exemplos, provas ou referências.

ALGUMAS PALAVRAS E EXPRESSÕES:

Capar o gato: 1. Fugir, dar no pé, rapar, no CE e na BA: "Juvenal acabou o namoro e capou o gato rapidinho". 2. Sair, ir embora: "A conversa está muito boa mas está na hora de capar o gato e ir para casa..."

Comer insosso e beber salgado: O mesmo que comer da banda podre, pegar a pior parte.

De caju em caju: Aqui e ali, uma vez ou outra, na BA: "Não era hábito dele, nem gostava mesmo de beber, no máximo um vermute ou uma cerveja de caju em caju, mas Deoquinha entornou dois copos daquele assobio-de-cobra como quem toma dois goles d'água (...)". Miséria e grandeza do amor de Benedita, João Ubaldo Ribeiro.

Na rosca da venta: Cara a cara, face a face, testa a testa.

Pegar-o-boi: Na BA é levar vantagem, fazer um bom negócio.

Samangar: Fazer nada, viver no ócio, vagabundar.

SOBRE A OBRA:

"O Brasil é um arquipélago formado por linhas históricas, o que se reflete no plano sociocultural e lingüístico. Revendo este aspecto, a língua portuguesa trazida pelos colonizadores foi-se propagando em ondas de ação lenta e eficiente sobre os falares indígenas, a partir de núcleos fundamentais, entre os quais Pernambuco e Bahia, os mais antigos pólos irradiadores e fixadores desta língua européia na terra do pau-brasil. Formou, assim, dessa língua transplantada nos primórdios da colonização, a base do dialeto nordestino que leva o seu povo a falar diferente do resto do país.

Assim falamos nós, nordestinos, do Maranhão à Bahia, um dialeto cheio de arcaísmos, de modismos variados, não só no vocabulário, mas nos torneios sintáticos, na entonação e na prosódia. Temos de reconhecer que não se fala no Recife como em Sorocaba, Bagé ou Manaus. E essas diferenças são percebidas com maior acuidade quando nos afastamos de nosso meio.

Fred Navarro passou por esta experiência. Pernambucano, radicou-se em São Paulo há quinze anos e, de lá, teve perspectiva suficiente para observar o falar nordestino. Dedicou-se então a um trabalho de levantamento vocabular, coletando, do Maranhão à Bahia, termos e expressões, algumas próprias de um único Estado, e outras compartilhadas pelos demais. O registro é eclético, com um corte diacrônico: expressões arcaicas e atuais e gírias recentes fazem parte do acervo, retiradas de dicionários, músicas e livros de autores famosos como Gilberto Freyre.

Com sensibilidade lingüística, o pesquisador descobriu as singularidades da fala nordestina, dentro da base comum de língua portuguesa. O livro constitui-se um resgate de nosso falar, registrando na palavra escrita recursos de oralidade. Os verbetes, junto com as definições, trazem letras de música e até receita de bolo. É uma leitura leve, em que vemos retratados a nós mesmos, enquanto falantes e ouvintes do dialeto nordestino."

Nelly Carvalho é professora do Departamento de letras da Universidade Federal de Pernambuco

"Esse tipo de trabalho é muito importante para estudantes e para o público em geral, por ser um registro da língua falada, daquilo que é dito no cotidiano. A falta de registro no Brasil, sobre todos os assuntos, é uma coisa impressionante. Este é o tipo do trabalho que merece parabéns, é um trabalho abnegado e um registro da maior importância."

Jô Soares (Programa Jô Onze e Meia, SBT, 16/11/1998)

POR TRÁS DAS PALAVRAS
MANUAL DE ETIMOLOGIA DO PORTUGUÊS
Mário Eduardo Viaro

Editora: Globo
Número de páginas: 378

Por trás das palavras desvenda as origens de nosso léxico de maneira agradável e inteligente, acessível a qualquer um que queira entender a origem das palavras de nosso idioma.

O LIVRO

Reforçando a linha de publicações que buscam esclarecer ao leitor – seja ele profissional da área ou leigo – o funcionamento da língua portuguesa, a Editora Globo acaba de lançar Por trás das palavras - Manual de etimologia do português. Escrito por Mário Eduardo Viaro, professor de filologia românica da Universidade de São Paulo (USP), o manual visa esclarecer o mecanismo de formação das palavras, de acordo com suas origens históricas.

Passando pelos mais diferentes movimentos e vertentes de pensamento, a obra relata brevemente o processo de erradicação dos estudos históricos de nosso idioma. Explicitando tal processo e suas implicações nos dias de hoje, Viaro afirma que, na atualidade, "veicula-se muita informação etimológica sem a seriedade da metodologia criada ao longo de seis séculos de estudos da filologia e da lingüística histórica". Na contramão dos iconoclastas, portanto, ele se utiliza dessas ciências para auxiliar os leitores a entender a técnica construtiva das palavras.

O volume é dividido em duas grandes partes: "O latim e o português" e "O léxico não-latino". Ambas as partes são iniciadas com um panorama geral do assunto a ser abordado, e o aprofunda à medida que o leitor se familiariza com os termos e a didática apresentada. Rico em tabelas e exemplos práticos, o manual configura excelente fonte de consulta para os que querem se comunicar bem e entender como sua própria língua funciona, com todas suas particularidades. Seu grande diferencial, entretanto, está na facilidade que o leitor encontrará em formar novos vocábulos, uma vez que Viaro fornece, em linguagem simples e objetiva, todos os instrumentos para isso.

A DIVINA COMÉDIA DA FAMA
Xico Sá

Editora: Objetiva
Número de páginas: 240

Impiedoso e mordaz, este livro se inspira na estrutura de um clássico da literatura universal – A Divina Comédia, de Dante Alighieri – para explorar os novos artifícios da roda da fama. Os ciclos do purgatório, do paraíso e do inferno, por onde circulam obrigatoriamente os modernos candidatos à fama, são desvendados aqui com perspicácia e humor.

Xico Sá aponta as novas profissões do mundinho, revela estratégias inusitadas e curiosidades sobre esse universo coalhado de egos. São os famosos de verdade falando sobre o preço do sucesso; são os colunistas revelando um pouco do seu dia-a-dia; são as celebridades efêmeras contando suas peripécias nesse teatro de ilusões.

Vale tudo: notinha no jornal, pegadinha, reality show, topless perto de artista. Quem tem um projeto de fama cumprirá religiosamente todos os mandamentos dessa comédia.

O autor faz uma viagem deliciosa no tempo – do conto "O homem célebre", que mostra como Machado de Assis já retratava a questão no século XIX, até o último Big Brother. Do paraíso do fama ao purgatório do anonimato, A divina comédia da fama explora todas as artimanhas dessa verdadeira fogueira das vaidades e de seus personagens ávidos em conquistar seu espaço no panteão da glória.

XICO SÁ, jornalista que iniciou trajetória no Recife, coleciona prêmios importantes por suas reportagens, como o Esso, o grupo Folha e Abril. Foi ele quem revelou ao País o paradeiro de PC Farias, em 1993. Curioso e bem informado, Xico Sá se consagrou como um crítico de costumes dos mais divertidos do País.

TU NÃO TE MOVES DE TI
Hilda Hilst

Editora: Globo
Número de páginas: 360

Hilda Hilst reflete sobre o existencialismo costurando três histórias em Tu não te moves de ti.

O LIVRO

Tu não te moves de ti é uma das obras mais densas de Hilda Hilst. Com seu modo peculiar de narrativa fragmentada e convulsiva, a autora constrói três novelas distintas entre si, mas conectadas em linha de pensamento.

Em "Tadeu (da razão)", o personagem homônimo é um empresário bem-sucedido, mas que ao chegar na crise de meia-idade passa a se questionar sobre a própria existência e a vida de aparências que leva em companhia da mulher. Ele deseja seus livros e a liberdade da criação artística, a última mantida sempre no ostracismo, em detrimento do trabalho administrativo na empresa. Mas a esposa Rute não o acompanha nesse ponto de mudança, e uma ruptura se faz necessária.

O segundo conto, "Matamoros (da fantasia)", relata a trajetória de Maria Matamoros, uma menina habituada desde muito cedo ao contato com os homens. Ela atribui sua disposição para as brincadeiras sexuais à curiosidade: "Desde sempre tudo toquei, só assim é que conheço o que vejo". A sexualidade da jovem se torna problemática quando ela começa a disputar com a mãe o amor do mesmo homem. Na delicada trama que se forma, maternidade e decrepitude são temas que ganham densidade. A situação se agrava, porém, quando a vidente Simeona diz a Matamoros que ela ama uma fantasia, um homem que não existe.

O conto que encerra o volume, "Axelrod (da proporção)", retrata as especulações do professor Axelrod Silva, sobrinho de Haiága, sobre a roda axial da história. Novamente a reflexão sobre o tempo e a finitude dominam a narrativa. Nesta última história, porém, Hilst dispõe seu caos paradoxalmente ordenado de modo a brincar com o leitor, submetendo-o a um olhar ainda mais esfacelado do que nas duas primeiras novelas. No todo, Tu não te moves de ti versa de forma espetacular sobre as inquietações mais profundas do homem, revelando suas falhas, maravilhas e obscuridades.

A CRÍTICA

Hilda Hilst é considerada um dos nomes mais importantes da literatura brasileira contemporânea, tanto por estudiosos quanto entre os próprios escritores. Millôr Fernandes definiu a escritora como "uma bela poetisa, de um gênero que quer sempre agredir o sistema. Personalidade única". O escritor Moacyr Scliar, por sua vez, afirmou que "ela tem uma obra inovadora.(...) Ela realmente teve a coragem de virar a mesa, romper com esse falso moralismo no Brasil, o que, junto com sua obra, já é o suficiente para colocar seu nome na nossa literatura".

UMA VIAGEM COM DEBRET
Valéria Lima

Coleção Descobrindo o Brasil
Editora: Jorge Zahar
Número de páginas: 88

Jean-Baptiste Debret (1768-1848) viveu quinze anos entre os brasileiros. O produto desta longa permanência – os volumes de sua viagem pitoresca e histórica ao Brasil – é um convite à viagem pela mente desse artista, viajante por força do destino, filósofo por tradição, historiador por opção. Ao longo do trajeto, o leitor acompanha as histórias de índios, negros e brancos, e com elas a marcha da civilização no Brasil.

ANGÚSTIA DE FAUSTO
Paula Mastroberti

Coleção Reversões
Editora: Rocco
Páginas: 136

E se Fausto fosse uma megaestrela do rock que troca sua alma pelo sucesso eterno? Com essa idéia em mente, a escritora e artista plástica Paula Mastroberti criou Angústia de Fausto, uma nova versão da clássica história do homem que faz um pacto com o diabo. O livro, ilustrado pela própria autora, inaugura uma nova linha editorial da Rocco Jovens Leitores, oferecendo uma literatura bem mais densa ao público a partir de 15 anos.

O romance já começa com Fausto tendo uma crise de overdose de heroína. Ele é um guitarrista adorado em todo o mundo, reconhecido por seu talento, mas que mergulha fundo nas drogas. No meio de um show lotado, ele começa a passar mal. Fausto sua frio, delira, tem visões. A morte sobre o palco é certa. É o fim da linha para um astro adepto da autodestruição. Ou melhor, seria: no momento de desespero, o ídolo do rock entrega sua alma ao Anjo Mau, em troca de vida, lucidez, juventude, criatividade, fama e poder eternos. Ele nem se dá conta do pacto que fez, mas a dívida será cobrada em seu devido tempo.

Quando Fausto se recupera da crise de overdose, ele volta ao mundo do espetáculo de forma apoteótica, com mais popularidade e prestígio do que ninguém jamais teve. Ele tem tudo, menos Guida, a única a não ver nada de especial em sua arte. Acostumado a ser o centro das atenções, pela primeira vez Fausto esbarra em alguém capaz de desafiar a sua onipotência e o seu orgulho. Por isso, ele sente que precisa conquistá-la. Mesmo contrariado, o Anjo Mau se dispõe a ajudá-lo, mas da maneira mais perversa: Fausto terá que escolher entre o amor e o sucesso profissional. Isto, é claro, se ainda for possível reverter o pacto feito anteriormente.

Para escrever Angústia de Fausto, Paula Mastroberti se inspirou não apenas no clássico Fausto, de Johann Wolfgang von Goethe, mas também em Doutor Fausto, de Thomas Mann, e A trágica história de Doutor Fausto, de Christopher Marlowe. As referências utilizadas, no entanto, vão muito além: desde a ópera Don Giovanni, de Mozart, até o romance Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, passando por histórias do universo do rock. O resultado é uma narrativa moderna e inteligente, capaz de encantar não apenas os jovens a partir de 15 anos, mas também várias gerações de adultos.

Artista plástica, a autora assina também as ilustrações de seus livros. Para Angústia de Fausto, ela se inspirou no mangá, o popular estilo de desenho japonês que tem milhões de fãs em todo o mundo. Os traços de Paula Mastroberti lembram as histórias em quadrinhos mais elaboradas, criando imagens sombrias como o tema do seu novo romance.

ARTESANATOS DE POESIA
Mário Faustino

Organização: Maria Eugenia Boaventura
Editora: Cia. das Letras
Número de páginas: 576

Ensaios de linguagem ágil e despojada sobre poetas que inauguraram a modernidade no século XIX, como Poe, Baudelaire e Rimbaud, e escritores que fizeram a vanguarda do século XX, como Marinetti, Apollinaire e Ezra Pound. Os textos do poeta e crítico Mário Faustino, autor de O homem e sua hora, saíram na página Poesia-Experiência do Jornal do Brasil.

O QUARTO FECHADO
Lya Luft

Editora: Record
Número de páginas: 112


Aclamado romance que marcou a estréia da autora na literatura. Narra a viagem de retorno de Rísia à terra onde sua mãe nasceu, a lendária Tijucopapo. No trajeto, ela relembra sua infância no Recife e a adolescência em São Paulo.

47 CONTOS
Isaac Bashevis Singer

Tradução: José Rubens Siqueira
Editora: Civilização Brasileira
Número de páginas: 720

Isaac Bashevis Singer (1904-1991) nasceu na cidade polonesa de Radzymin e passou a maior parte da infância em Varsóvia. Seu nome verdadeiro era Icek Hersz Zynger. Seu pai, Pinkhos Menachem, descendente de rabinos, era ligado à seita hassídica, grupo surgido em reação à austera religião judaica tradicional. Os hassidistas, pobres e pouco letrados, viam a manifestação de Deus em toda parte, inclusive na natureza, e mantinham práticas de culto alegres e celebratórias.

A casa do pai de Singer era local de debates, orações e estudo, onde pessoas se reuniam para contar histórias em iídiche que serviriam de inspiração para o autor. Em 1935, Singer emigrou para Nova York, onde escreveu a maior parte de sua obra, sempre em iídiche, produzindo até o fim da vida.

47 contos de Isaac Bashevis Singer é uma antologia representativa de sua ficção. O livro reúne alguns de seus mais importantes contos, como "Gimpel, o bobo", "O Spinoza da rua do Mercado", "Breve sexta-feira", "Um amigo de Kafka", "Uma coroa de penas" e "O poder das trevas". Este último tem como cenário Varsóvia, onde vive o narrador, um menino que lembra o próprio Isaac: filho de rabino e estudioso do Talmude, o personagem descobre o sexo e seus mistérios.

A infância na Polônia alimentaria continuamente a obra de Singer, marcada pelo humor filosófico próprio da tradição judaica, por um erotismo de forte carga mística e pelo talento narrativo. Singer foi, sobretudo, um grande contador de histórias: acreditava no poder que a literatura tem de alargar os horizontes da experiência humana, estabelecendo uma ponte entre passado, presente e futuro.

Endereço para correspondência:
livros_letras@ig.com.br