Universidade Estácio de Sá Entre no Campus Virtual

EDIÇÃO 11 16 de julho de 2004
Editorial
Entrevistas
Crônicas
Ficção
Fórum de Debates
Pós-Graduação
Coluna de Música
Coluna de Cinema
Coluna de Teatro
Coluna de TV
Coluna de Inglês
Coluna de Alemão
Coluna de Português
Colina de Francês
Coluna de Italiano
Lançamentos
Resenhas
Sebos
Livrarias
Humor
Eventos
Publicações em Jornais e Revistas
Cartas do Leitor
Artigos de ex-alunos
Coluna Social
Horóscopo
Classificados
voltar página principal números anteriores
 

AS VÁRIAS VOZES DA POESIA NA FRANÇA

Maria Amelia Ferreira dos Santos
Jornalista e aluna do 5º período de Letras – Campus Rebouças

Um livro para romper com a quase nenhuma presença da poesia francesa moderna e contemporânea em nossa língua – Poetas de França Hoje 1945-1995 –, nos veio pelas mãos do poeta e tradutor Mário Laranjeira. Além dos poetas já consagrados, como Charles Baudelaire, Arthur Rimbaud, Paul Verlaine, Mallarmé, Apollinaire, mais conhecidos e lidos, mas ainda sem a representação e estudo necessários, poetas que se seguiram a esses, como René Char, Jacques Prévert, entre outros, foram divulgados fracamente entre nós.

Rompendo com esse hiato na literatura poética no Brasil, da literatura francesa, o professor Mário Laranjeira faz uma seleção e tradução de poetas franceses, cuja produção situa-se entre 1945 a 1995. O autor ainda apresenta uma introdução em que enfrenta um estudo da poesia francesa produzida nos últimos cinqüenta anos, o que a caracteriza; os índices das tendências estéticas; sua enorme variedade temática e formal; a contestação ao lirismo; a reafirmação do lirismo; a autocontemplação; a subjetividade em ausência como marca da modernidade.

A grande e grave questão da tradução não é esquecida, e o tradutor vai analisá-la com o respaldo no pensamento de correntes teóricas e literárias.

Laranjeira enfrenta também a validade dos critérios adotados para a seleção dos poetas, ressaltando o caráter de amostragem que justifica a ausência de alguns possíveis nomes.

Dos poetas que iniciam antes de 1960, destacamos a poesia de Edmond Jabès (1912-1991). Nascido no Cairo, o poeta teve educação francesa e optou pela nacionalidade do país onde viveu desde jovem. Como acentua Laranjeira, a "poesia de Jabès sabe aliar como nenhuma outra, tanto na forma quanto na temática, tradição e modernidade."

(Poema in: L'Absence de Lieu, 1955)

TERRAIN VAGUE...

Terrain vague, page obsédée.

Une demeure est une longue insomnie
Sur le chemin encapuchonée des mines.

Mes jours sont jours de racines,
Sont joug d'amour célébré.

Le ciel est toujours à traverser et
La terrasse à nourrir de nuits nouvelles.

Le deuil de mes démarches forme
Enclave dans la clarté opaque de murs.

La terre baigne dans de
Vaines visions de voyages.

TERRENO VAGO...

Terreno vago, página obsedada.

Uma morada é uma longa insônia
No caminho encapuzado das minas.

Os meus dias são dias de raízes,
São jugo de amor celebrado.

O céu está sempre por atravessar e
O terraço por nutrir de noites novas.

De meu vagar o luto forma
Enclave no clarão opaco das paredes.

A terra embebe-se em
Vãs visões de viagem.

O poeta Henry Deluy (1931) que está entre os que iniciam sua produção poética depois de 1960, representa, segundo o professor Mário Laranjeira, "... os esforços e as tentações que vêm atravessando, nos últimos trinta e poucos anos, a poesia francesa – ou a poesia simplesmente – na sua luta constante contra todas as "velharias" poéticas e na busca da modernidade".

(Poema in: L'Amour Charnel, 1994)

La chambre semblait sortir du corps.
La chambre sembalit sortir des plis
De la robe et des plis du corps.
La chambre semblait recevoir
Autre chose encore. - Tu disais:
Lorsque je partirai, je partirai loin
Et sans regrets. - La chambre était
Toute entière dans cet amas confus
De paroles, près de la robe, et
Dans ce paysage, qui disparaît
Vers le haut de tes cuisses.

O quarto parecia sair do corpo.
O quarto parecia sair das pregas
Do vestido e das pregas do corpo.
O quarto parecia receber
Outra coisa ainda. – Tu dizias:
Quando eu partir, eu partirei bem longe
E sem remorso. – O quarto estava
Todo nesse confuso amontoado
De palavras, junto ao vestido, e
Nessa paisagem, que se ia sumindo
Para o alto de tuas coxas

Poetas de França Hoje: 1945-1995
Seleção, tradução e introdução de Mário Laranjeira (Professor do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP).
Editora: Edusp Fapesp

Endereço para correspondência:
amelia.fer@globo.com