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EDIÇÃO 1 18 de agosto de 2003
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"BOBEDIANTES EM TEMPOS DE "LULA-LÁ"

Existem diversas congruências entre os programas de TV das grandes redes midiáticas da "terra brasilis" e o programa de governo do atual poder, liderado pelo presidente "Luís Catártico Lula sem Silva" (visto que, além de estar liberando todos os seus mais banais desejos reprimidos, esqueceu-se há muito tempo de sua parcela de "silva"). Ambos parecem decididos a explicitar o que há de mais kitsch (metáfora da inutilidade) em termos de proposta: a programação da TV parece mais um misto de banalidades – que se estende por novelas globais, "talkshows", programas de auditório (ou melhor, de ambulatório) e redes de fofoca sem o menor sentido – com um show de horrores que, se não tivermos cuidado, podem nos atingir com o sangue das matérias dos noticiários.

No que se refere ao governo, é evidente que busca se afirmar com base na duplicação do que foi a corte tucana, pois, mesmo que alguma mudança ocorra no trágico quadro de desigualdades políticas, sociais ou econômicas do país, não demonstra, significativamente, nenhum elemento efetivo de diferenciação da política anterior. Essa planilha de governo, ideologicamente viável dentro dos interesses capitalistas, nos lembra mais uma farsa histórica, como bem se viu no governo Collor e na histeria de seu "impeachement" arranjado, do que uma proposta reformadora e autêntica. De fato, a mudança com "M" maiúsculo, tão conclamada na época das promessas, vai se tornando um grão de areia perante a rede de vaidades e interesses dos políticos.

No campo das imagens, a televisão exerce seu papel pró-governista, narcotizando, robotizando e alienando as pessoas de uma tal forma que os bons programas ficam com um espaço deveras reduzido perante o espetáculo do besteirol. Digam com sinceridade: o que se pode extrair de interessante dos programas semanais de todas as tardes e dos programas de final de semana com seus "bem alimentados" apresentadores? O que fazer com as grandes apresentações do "Domingo letal"? Alguém mais suporta o império das louras fúteis, com seus ares de revista "Caras", as receitas da "Ana Maria Brega", as piadas "engraçadíssimas" dos "bobediantes" da Globo e do SBT e a falta de critérios das famigeradas "pegadinhas"?

Presenciamos pela TV a construção mítica do atual presidente, cujo semblante cada vez mais se aproxima do de Getúlio Vargas, e o surgimento de uma curiosa espécie: o "homo lulanáticos brasilienses". Esta espécie é capaz de separar vagas para negros nas universidades, num país em que todos são mestiços, e apoiar um programa ideologicamente ridículo, que se propõe a dar fim à fome, alimentando uma carência embrionária da cultura brasileira, isto é, em vez de proporcionar, às grandes massas necessitadas, as ferramentas para que elas produzam o alimento e as oportunidades, infantiliza-se o processo com campanhas e programas sociais que visivelmente não vão resolver o problema da fome num país de dimensões continentais como o Brasil. Agir dessa maneira é praticamente reafirmar o império da ignorância que se arrasta pela nossa história de desmemoriados.

Por outra via, percebe-se um vigoroso investimento dos canais de TV no problema da violência, explicitando a todo instante as mais diversas situações do cotidiano suicida das grandes cidades sem, de fato, resolver coisa alguma. O que rende, por baixo dos panos, são os números cada vez mais elevados da audiência para esse tipo de propaganda camuflada da violência, que da desgraça alheia enche os bolsos de dinheiro dos "sanguessugas" do poder. Perguntem-se com engenhosidade: de que adianta demonstrar pela tela da TV o horror generalizado, engendrado pelo tráfico de drogas, sem haver realmente uma pressão política, em cima do estado, por mudanças efetivas de toda estrutura social? Quem, de fato, patrocina o fornecimento, a entrada e a saída de drogas dos morros, das favelas e do País? Seria o traficante, o dito "café pequeno", ou talvez os ricos e poderosos capitalistas com seus meios de comunicação e redes políticas de troca de favores?

Assim, sobrevive-se em meio ao redemunho, como diria o engenhoso Guimarães Rosa: o vampiro do estado crava seus dentes e a vampírica mídia televisiva coordena as ovelhinhas em direção ao matadouro, sem que ninguém fale ou perceba nada de errado. Pelo contrário, este processo tornou-se tão comum na contemporaneidade que qualquer pessoa que se oponha ao absurdo da "matrix" é visto como um chato solitário. Até aqueles, artistas e pensadores, que deveriam exercer seus devidos papéis de problematização do caos televisivo e político do país estão perfeitamente adaptados à macroestrutura. Ficam-nos as perguntas: será que o gosto das pessoas se tornou tão insosso que todos conseguem ser fúteis, apolíticos e felizes ao mesmo tempo em que a TV promove a barbárie? Será que Abraham Moles imaginou um presidente tão talentoso, para o espetáculo das futilidades e do ridículo, quando refletiu sobre a estética "Kitsch"? Dúvidas?

Ângelo Grisoli