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EDIÇÃO 1 18 de agosto de 2003
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Música: a língua em sons. Um breve histórico - Parte 1

Código de sinais de origem social, linguagem a serviço da arte rigidamente estruturada com inúmeras variações, sendo uma delas de caráter normativa, o que gera, logicamente, discussões acaloradas a respeito dessa padronização. Lingüística? Não, meus caros. A música. Mas, como códigos de sinais? Sim, sinais sonoros. Contraposição de som e silêncio. Estrutura enraizada em si mesmo como forma de se auto-sustentar. As comparações com a lingüística, ou melhor, semelhanças entre duas linguagens tão distintas são, na verdade, matéria-prima de uma arte que há séculos só faz uma coisa: retratar de modo absoluto as diversas épocas, os diversos estados do espírito humano.

A história da música se confunde com a própria história do homem. De início, os grunhidos dos primitivos evocavam uma tentativa de comunicação além dos sinais de alerta. Passou-se a rugir e/ou ronronar, ou seja: definiram-se por si só as nuances da "anima". Daí, a entoar cada som com uma duração pré-definida em alturas distintas, formando frases de sentido abstrato, gerando "composições" de caráter festivo, ou não, deu-se a origem, ainda em massa bruta, de uma linguagem poderosa. Do som bruto e lascado evoluiu-se para o canto, agora já em simbiose com a língua.

Na era clássica, os poemas eram cantados, o que deu origem à forma cantata, que a rigor funciona com a divisão da peça em seções distintas que constituem um todo. Do mesmo modo, a matriz do soneto tem seu espelho sonoro na sonata, onde a divisão das seções obedece a uma forma também bastante rígida. Neste ponto acontece a primeira grande revolução na música: até então com predominância nos versos, a música (leia-se som) passa a ter voz própria. Os instrumentos, que àquela altura eram coadjuvantes, bem comportados a serviço de uma base sonora, agora ganham pequena autonomia. Estamos em plena Idade Média, época de fortes idéias conservadoras que abrangem também a arte.

Desenvolvendo-se paralelamente às outras manifestações artísticas, a música também vai ser elitizada; no seu caso específico, a Igreja tem papel fundamental. Porém essa elitização faz com que ela se desenvolva de maneira soberba: surgem as polifonias - diferentes vozes que se cruzam em plena harmonia, cada uma independente em relação à outra, originando uma mensagem compacta, numa perfeição divina a louvar, de maneira extrema, o criador, sua criação e sua criatura. Por outro lado, nas ruas, surge a variação profana dessa "perfeição". Menos pretensiosa, ela sugere, a partir da simplificação melódica, da exposição quase monocórdia da frase musical, as mazelas humanas.

Da pureza harmônica da Renascença ao conflito existencial do Barroco: agora a música se torna predominantemente sonora. Claro que há produções com texto, mas já não são mais dominantes. Muito pelo contrário: quando há imperatividade, é sempre da música sobre a letra. A produção musical barroca está em consonância com a linha de pensamento da época e, conseqüentemente, utiliza-se das inversões, das antíteses, dos ornamentos e da textura entrecruzada sempre de caráter sonoro - para refletir, unificar e universalizar o homem. Surgem os grandes compositores que irão mostrar o caminho a seguir: Bach, Vivaldi, Handel, Corelli, entre outros. Não se enganem! O que se ouve hoje em dia, seja clássico ou popular, não existiria sem esses senhores acima citados, em especial o senhor Johann Sebastian Bach. Na próxima coluna vamos descobrir o porquê.

Desenhos de músicos da Idade Média