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EDIÇÃO 1 18 de agosto de 2003
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FÓRUM

A arte sempre foi considerada "sagrada", até porque é, sem dúvida, um patrimônio da humanidade, tanto quanto os monumentos históricos, os documentos, ou até mesmo as cidades. A modernidade rompeu com esse traço, na medida em que a reprodução técnica trouxe, entre outras, a perda da "aura", como enfatizou o teórico alemão Walter Benjamin.

O caráter aurático da arte, no entanto, nunca foi totalmente rompido. Nomes como Leonardo da Vinci, Michelangelo, Picasso, Van Gogh e outros são respeitados através dos tempos e não há quem resista à atração de conhecer e contemplar uma Monalisa ou os afrescos da Capela Sistina, por exemplo, para citar apenas dois.

Quando Walter Benjamin referia-se à "perda da aura" – o que, na sua leitura, assumia um caráter positivo e libertário, tendo-se em vista o acesso mais fácil, pela circulação ampliada da arte, graças à reprodutibilidade tecnológica – jamais poderia supor o que viria a acontecer recentemente. Refiro-me a matéria trazida pelo caderno "Mais!", da Folha de São Paulo, de 13 de julho de 2003, sob o título de "Vandalismo conceitual".

O texto dá conta de que dois artistas britânicos – Jake e Dinos Chapman – compraram gravuras originais de Goya e sobre elas pintaram rostos de macaco e de palhaço (ver gravuras). A coleção que sofreu essa, digamos, "interferência artística" foi a tiragem completa (80 gravuras) de "Os desastres da guerra".

O leitor deve estar se perguntando, no presente momento, como terão eles conseguido. Na verdade, os referidos artistas compraram a coleção, por 40 mil euros, há cerca de dois anos, o que, para muitos, tem sido um argumento a favor da "intervenção": se é uma propriedade adquirida, eles passariam a ter o direito de fazer qualquer coisa, inclusive adulterá-las, já que o conceito de "patrimônio da humanidade" é relativo.

Por outro lado, a obra não é deles, dos irmãos Chapman, propriamente, já que foi pintada por Goya. Teriam eles, por conta da aquisição, o direito de produzirem essas modificações?

Há, sem dúvida, precedentes: a exemplo, Marcel Duchamp pintou bigodes na Monalisa e isso foi considerado um gesto artístico, em meio ao processo do Dadaísmo, anárquico e destrutivo. Um ponto, porém, pesa a favor de Duchamp: ele não adulterou o quadro original, mas uma cópia. Tratava-se de um gesto marcadamente transgressor, porém não privando a humanidade de sua obra-prima. Muitos, como Affonso Romano de Sant'Anna, defendem a noção de que essa atitude não poderá ser chamada de "arte", que pressuporia muito mais do que um simples par de bigodes sobre uma tela pintada por outro. Mas o certo é que, para os museus e registros de arte, a fotografia da Monalisa de bigodes é artística.

A grande pergunta que fica desse imbróglio é: os Chapman são artistas ou vândalos? Justificativas, eles conceitualmente apresentam: as gravuras descreveriam os "mecanismos da 'moral esclarecida' pela qual a violência é um meio eficaz de demonstrar a necessidade absoluta de uma moldura ética". Resta saber se a atitude dos dois foi ética. Em outras palavras, é ético se praticar a violência para se demonstrar a necessidade de ética? Mais ou menos como matar para demonstrar que não se pode matar?

Os críticos estão divididos. A população tem se manifestado, às vezes agressivamente, contra os dois. Uma parcela concorda e a maioria é indiferente. E você, leitor, em qual das categorias se enquadra?

Escreva-nos para dar a sua "participação inteligente", como diz Caetano Veloso, na composição "Haiti". Ao menos, nós prometemos não adulterar o seu texto...
Nosso endereço é: forumdeletras@hotmail.com

GALERIA DE FOTOS

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ORIGINAL DE GOYA IMAGEM ADULTERADA
Os desastres da guerra, nº. 42


ORIGINAL DE GOYA IMAGEM ADULTERADA
Os desastres da guerra, nº. 51


ORIGINAL DE GOYA IMAGEM ADULTERADA
Os desastres da guerra, nº. 65


ORIGINAL DE GOYA IMAGEM ADULTERADA
Os desastres da guerra, nº. 76

Leia também:

Sobre a coleção "Os desastres da guerra"
Sobre Goya