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EDIÇÃO 1 18 de agosto de 2003
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ENTREVISTA: ELZBIETA SZOKA

1. Sua obra mais recente, "Fourteen female voices from Brazil: interviews and works", faz uma pesquisa em torno de mulheres que escrevem, no Brasil. Algumas são conhecidas, acadêmicas; outras não. Acredito que nenhuma delas seja efetivamente conhecida nos Estados Unidos. Como você chegou a esse elenco de escritoras?

Elzbieta:
Algumas, como Renata Pallottini, Leilah Assumpcão, Helena Parente Cunha e Sônia Coutinho são amigas de muitos anos. Quase todas autoras da antologia são conhecidas nos "círculos acadêmicos" e as obras delas estão nas bibliotecas universitárias norte- americanas. Usei os textos delas nas aulas de literatura brasileira em Columbia, onde ensino desde 1995. Algumas conheci através das recomendações de terceiros.

2. Em matéria publicada pelo Caderno Idéias, do JB, em 18 de janeiro de 2003, você afirma que o sentido da obra "Fourteen female voices from Brazil: interviews and works" seria formar um "coro de timbres literários", um "conjunto vocal", referindo-se às múltiplas diferenças que perpassam as autoras trabalhadas. Até que ponto na sua leitura perpassa a visão da "carnavalização" (do teórico Bakhtin) como identidade específica do povo brasileiro?

Elzbieta:
Ao meu ver, a "carnavalização", segundo Bakhtin tem a ver com o período mais do que com a nacionalidade, por assim dizer, da produção artística mundial. Parece que "carnavalização", tanto no Brasil, como na Polônia, por exemplo, está associada com períodos de criação artística que reivindicam o passado e o presente. Foi o caso do modernismo brasileiro e do modernismo polonês, por exemplo.

3. Apesar das diferenças, quais os elementos que você percebe em comum na escrita desse elenco de mulheres brasileiras. Em outras palavras, você nomeia algum traço de semelhança entre elas? Seria possível extrair a identidade da mulher brasileira atual, através dessas escritoras?

Elzbieta:
A minha intenção foi justamente essa. Através de várias vozes e perspectivas, criar uma espécie de retrato da mulher brasileira atual, claro, segundo a minha perspectiva. Outro editor teria escolhido outras representantes dessa identidade, provavelmente. Licença poética do editor/coordenador. Sendo um livro de entrevistas, também, só contem escritoras vivas... Pagu e Clarice não podiam ser incluídas... Quanto ao traço de semelhança, Jean Franco disse na introdução ao livro que todas elas parecem bater as asas contra uma gaiola... Não é uma citação exata, mas a idéia é essa, mais ou menos. A percepção da Jean Franco também foi expressa em algumas resenhas do livro nos Estados Unidos. Será que o leitor brasileiro as percebe do mesmo jeito? Não sei. Não sou brasileira...

4. Todos sabemos que a mulher vem, paulatinamente, conquistando mais e mais um lugar na escrita. Mas a postura das mulheres na literatura vem mudando: antes mais intimistas, elas agora olham o mundo. Assim, qual a importância, na sua visão, da narrativa feminina para a compreensão do mundo atual?

Elzbieta:
Enorme. Foi justamente por isso que resolvi fazer essa antologia. Como explico no prefácio, a inspiração veio dos meus alunos, que escolheram obras de autoria feminina para interpretar nos ensaios e apresentações nas aulas de "Conto brasileiro contemporâneo". Eu, naquela época, não considerava gênero mais que um instrumento para acadêmicos oportunistas de conseguir espaço profissional. Até recentemente foi moda falar de mulher e de raça. Agora é moda falar da pobreza. A minha atitude um tanto cínica mudou com aquela aula. Os estudantes escolheram obras de autoria feminina porque justamente o mundo foi
apresentado por elas de uma forma diferente e nova para esses americanos (e brasileiros) jovens que não tinham interesse de conquistar espaço profissional em Letras, pois vinham de outras áreas.... Escolheram porque acharam diferente e nova essa produção. Diferente dos homens, lógico, e nova porque a presença de mulheres escritoras (em termos de quantidade de autoras reconhecidas) ainda é inferior à presença dos homens escritores e, por isso, "as vozes femininas" são menos ouvidas.

5. Quando se pensa a literatura em torno de questões de gênero (masculino, feminino), não estaríamos limitando, aprisionando a literatura? A literatura não estaria para além do binarismo?

Elzbieta:
A minha resposta anterior tem a ver um pouco com essa pergunta. Ao meu ver o assunto é complicado na medida em que vários artistas e intelectuais se aproveitam de um assunto importante, como feminismo por exemplo, para criar modas e dominar o espaço profissional. Essa "prostituição intelectual e artística" faz com que os assuntos em questão percam a credibilidade. Hoje em dia, é impossível conseguir um bom emprego acadêmico se o tema das divagações teóricas não seja a pobreza. E não é que o interesse dos acadêmicos do "primeiro mundo" na pobreza dos outros mude alguma coisa na distribuição dos bens...

6. Você tem outros trabalhos sobre a literatura no Brasil. Pelo menos gostaria de citar "3 Contemporary Brazilian Plays", em torno de Plínio Marcos, Leilah Assunção e Consuelo de Castro. Os três têm, em comum, uma certa postura "maldita", lidando com aspectos distintos da condição humana levada ao extremo. Como essa visão existencial atua sobre o público norte-americano?

Elzbieta:
Americanos, em geral, são pragmáticos e não gostam de pensar que existem situações sem saída. É sempre muito interessante ouvir meus alunos discutir essa "situação", em "Dois Perdidos numa noite suja", de Plínio Marcos. Para eles, Tonho não é a "vítima da injustiça social" ou da "condição humana", segundo Sartre em 'Huis Clos'," mas é um "loser" sem nenhum caráter. Imagino que "Macunaíma" seria visto do mesmo jeito, mas não posso jurar porque ainda não ensinei "Macunaíma"...

7. Alguns teóricos brasileiros defendem o conceito de que o mergulho excessivo na realidade termina por empobrecer a literatura brasileira. Parece que esse perfil de análise da realidade é que atrai o olhar norte-americano. Não estaria, mais uma vez, a literatura brasileira sendo absorvida pela leitura do exótico?

Elzbieta:
O exótico sempre atrai por ser diferente do que conhecemos. Sobretudo se é bonito e cheira bem. Não é só o caso da literatura brasileira. O "exótico agradável" e a "pobreza romântica dos outros" é o que vende também. Numa das resenhas do nosso livro num jornalzinho gay em Nova York, o escritor que o resenhou lamentou profundamente a falta de Carmen Miranda e da Garota de Ipanema nas páginas da antologia pois, segundo ele, é o que o leitor americano espera do Brasil. Embora a resenha tenha arrasado com o livro, com exceção da Renata Pallottini e Myriam Campello, fiquei satisfeita com a prova da ignorância do tal "resenhador" e com o fato de que a minha intenção de arrasar com o mito de Carmen Miranda e da Garota de Ipanema tinha dado certo e o cara não gostou justamente por isso. Too bad, honey...

8. A sua origem polonesa teria alguma relação com o olhar sobre o chamado "Terceiro Mundo"? Quais as marcas da origem polonesa sobre a sua visão de mundo?

Elzbieta:
Não sei. Não acredito que o lugar onde a pessoa nasce (sem poder escolher) tenha muito a ver com o resto. Não acho que tenha no meu caso pelo menos. Sou cidadã do mundo com preferências meridionais...

9. Bem, gostaria de perguntar um pouco sobre poesia, já que você foi tradutora de poemas brasileiros. Como você vê a moderna poesia brasileira?

Elzbieta:
Não traduzo poesia e não me considero especialista do assunto.

10. É possível estabelecer-se uma comparação (semelhanças e diferenças) entre as literaturas do Brasil e dos Estados Unidos? Qual a sua avaliação sobre a literatura brasileira, se comparada, por exemplo, com a produção da América Latina?

Elzbieta:
Também não posso responder, não sigo toda a produção latino-americana.

11. Agora, perguntaria a você o que foi perguntado às escritoras, no seu livro: a globalização. Como você vê esse fenômeno?

Elzbieta:
Não gosto da uniformidade e a globalização traz isso. Também cria mais injustiças econômicas e sociais no mundo. Deve haver lados positivos também, mas acho que o aspeto negativo dessa uniformização predomina.

12. Por fim, queria agradecer o trabalho que você desenvolve, tornando nossa literatura mais conhecida e pediria a você que enviasse uma mensagem para os nossos alunos de Letras, no Brasil, que estudam literatura brasileira, norte-americana e outras.

Elzbieta:
Continuem. Se não fosse por vocês o escritor desapareceria da superfície da Terra. Como diz Lygia Fagundes Telles, os três elementos em processo de extinção no Brasil são "árvore, índio e escritor". Eu acho que não é só no Brasil...

Caso vocês queiram enviar perguntas à nossa entrevistada, escrevam para o endereço:
gilda.dieguez@ig.com.br

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