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EDIÇÃO 1 18 de agosto de 2003
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O CÂNONE COLONIAL

Flávio R. Kothe
Editora Universidade de Brasília, 1997, 416p.
R$40
Assuntos Principais: 1. Teoria literária 2. Literatura brasileira


FÉRIAS NÃO-CANÔNICAS

O nome de Flávio Kothe me foi apresentado pela professora de Teoria da Literatura, que influenciou a minha mudança para o curso de Literatura. Coincidentemente, ela contou que esse professor da UNB foi quem nela incentivou o interesse pela matéria teórica. O autor ficou gravado na minha memória, embora não tenha mais sido citado em nenhuma das matérias sobre literatura que se seguiram. Além de O Herói (Série "Princípios", da Editora Ática), que li na biblioteca da Universidade, nenhum contato voltei a ter com o nome do professor Flávio. Garimpando os sebos do centro da cidade, mais de ano depois, me deparei com O cânone colonial: folheei o volume de mais de 400 páginas e fui por ele "mordido" de imediato. A rápida vista d'olhos, realizada ali mesmo, de pé e espremido entre as estantes da estreita loja, revelou-me mais um "rebelde" , um iconoclasta que expõe as suas idéias questionadoras de uma forma bastante contundente, pois sabe que será fortemente repudiado, e, portanto, argumenta em estilo agressivo, talvez exagerado, com o objetivo de estabelecer no leitor uma terapia de choque, para despertar a reflexão sobre dados que a ideologia dominante já nos inculcou, e de tal forma que acreditamos serem convicções nossas quando não passam de repetições/reproduções. Por exemplo, logo no início do primeiro capítulo, falando da maneira pela qual um cânone é instituído, ele diz:

"O que se tem é uma luta pelo poder. A verdade dessa poética é a política; confere-se autoridade a certos autores, introduzindo-os e cultivando-os no cânone, para que legitimem as políticas vigentes e as autoridades que as exercem."

O primeiro capítulo é uma virulenta argüição sobre a validade dos "cânones" estabelecidos e de suas origens. Desde a carta de Caminha até a "Marília de Dirceu", Flávio Kothe revê cada um dos tradicionais autores seguramente citados nas antologias escolares, questionando seus mitos de "formadores" exemplares da "identidade" literária brasileira. Na verdade, o intuito é mostrar que, geralmente, aceitamos como única o que é apenas uma possibilidade dentre inúmeras outras versões da História (no caso a da Literatura), dando por total uma coisa que é apenas parcial, vindo com um certo ranso totalitário, já que é fruto de um certo tipo de autoritarismo academicista, exercido por quem detém o poder ou o saber.

Depois desse "achado" no sebo, adquiri, em uma livraria comum, O cânone imperial, obra que dá seqüência ao que deverá ser uma trilogia, juntamente com O cânone republicano – por mim ansiosamente aguardado. O "imperial" prossegue com o mesmo espírito e com os questionamentos sobre as leituras usuais de Machado e de Alencar. Há, inclusive, um bom humor no trato das questões, como nesta sinopse de Senhora, de Alencar:

"A heroína é uma impossível mulher-maravilha: de moça pobre a rica herdeira; e ainda inteligente e fiel, linda e culta, honesta e de bom coração. Feita de encomenda. A nora que toda sogra pediu a Deus. A ação parece um sonho: um pretensioso estroína recupera-se e revela ter caráter, como se não tivesse casado por dinheiro e sim apenas por amor. O final é um happy end como só um patriarca escravocrata poderia tê-lo imaginado: a rica jovem, após ter tratado o amado com desdenho, como objeto de uma compra, ajoelha-se diante dele e suplica o seu amor."

ou passagens surpreendentes, como esta avaliação das personagens dos mais renomados romances machadianos:

"Os personagens masculinos e femininos de Machado de Assis não têm grandeza, seja ela épica, lírica, trágica ou cômica e, por isso, também não operam nem transformam a sua mediocridade. É como se achasse que falando dos ricos, se possível herdeiros de escravagistas, já se estivesse falando de pessoas elevadas, com grandeza. Confunde dinheiro com grandeza como, na Grécia, confundia-se linhagem com heroicidade, e só consegue produzir figuras medíocres, sejam elas homens ou mulheres, jovens ou velhos.

Escreve como um colunista social, que confunde beleza com riqueza, grandeza com posição, ser com ter, para acabar não tendo nem beleza nem grandeza e nem ser."

Não é, portanto, de se estranhar, a nota do autor no início de O cânone imperial, na qual ele relata os obstáculos encontrados para o desenvolvimento e a publicação da sua obra. Com boa certeza, fugindo aos modelos canônicos, esse livro, de caráter anárquico, relativiza a leitura tradicional, aprendida desde cedo nas escolas.

Por último, mas nem por isso menos envolvente, estou lendo Fundamentos da teoria literária, a última "provocação" do autor que encontrei nas livrarias. É ótimo, sem nenhum demérito, variar um pouco dos habituais bem comportados Antônio Candido e Alfredo Bosi.

José Mauricio - 23 de julho de 2003