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EDIÇÃO 1 18 de agosto de 2003
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CINEMA

"Cinema é Odessa, imóvel na manhã"
(Vinicius de Moraes)

Inauguramos nossa coluna de cinema falando um pouco sobre "O encouraçado Potemkim", de Sergei Eisenstein.

Filmado em 1925 e feito sob encomenda para comemorar os vinte anos da Revolução Russa, o filme (de forma simbólica) parte do fato histórico de 1905 (um motim à bordo do Potemkim) para criar uma obra universal que fale contra a injustiça e sobre o poder coletivo que há nas revoluções populares.

O filme é dividido em 5 partes que se ocupam em provocar uma situação tal de espaço-tempo onde todos os pormenores apresentam um significado a ser apreendido pelo espectador. Assim, a carne podre é o antigo regime; o velho pastor e sua cruz representam o poder eclesiástico; os revoltosos acuados na proa do navio simbolizam a vanguarda, aqueles que estão à frente; os leões de pedra que se levantam é o povo a sair da inércia (1).

De forma a transcrever idéias complexas e ideologias profundas, Eisenstein chegou ao uso de técnicas de montagem inspiradas nos ideogramas orientais. Se determinado ideograma significa "telhado" e outro, "esposa", a união dos dois é lida como lar (2). Desta forma, é o choque entre duas imagens aparentemente díspares que cria o impacto, o sentido a que se quer chegar. Eisenstein utiliza tal recurso exaustivamente em "O encouraçado Potemkim".
Claro fica, pois, a importância das seqüências no filme, da temporalidade. Nesse caso, é o tempo como fator interno muito mais preemente do que o tempo cronológico. Assim, a queda de um oficial ao mar é retomada em três momentos, cada um retornando, não necessariamente, no instante do corte anterior. Umberto Eco recorda que, na Suécia, a inversão na apresentação das partes da obra serviu como instrumento para a censura (1).

A clássica cena na escadaria de Odessa é a quarta parte do filme. As cenas iniciais banhadas em luz e alegria (alegorias para a bondade e solidariedade do povo para com os marinheiros) são substituídas pelas imagens chocantes de repressão violenta pela guarda do Czar. A própria escada já traz, em si, um símbolo da cruel hierarquia social e política, da diferença entre as classes. A cena da mãe assassinada, cujo carrinho de bebê desce degraus abaixo, é sempre citada como uma das mais famosas da história do cinema.

"O encouraçado Potemkim" é um filme que exige de quem o assiste um pensar sobre o que se vê. A elaboração do sentido se dará a partir do que cada um absorve do encontro entre os cortes, entre os símbolos. Assim, a função da metalinguagem se exercita em Potemkim, pois só quem consegue ultrapassar os limites da imagem pura e concreta que se apresenta para a imagem abstrata, para a mensagem real, poderá lê-lo.

Letícia Duarte

   Leia também sobre:
O encouraçado Potenkim
Vida e obra de Sergei Eisenstein