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O NEO-REALISMO ITALIANO E AS NOVAS TECNOLOGIAS

Ney Costa Santos
Cineasta e Professor do Curso de Cinema da
Universidade Estácio de Sá

Fala-se muito em novas tecnologias digitais de captação e edição de imagem e há mesmo quem afirme que a era do filme, como suporte básico da imagem cinematográfica, está com os dias contados, sendo sua extinção apenas uma questão de breve tempo.

É evidente que o aparato técnico do chamado cinema digital abre um campo de infinitas possibilidades, que vão desde o custo mais acessível até o estabelecimento de um novo paradigma de captação das imagens que ainda agora, no início do século XXI, chamamos de cinematográficas.

Não quero enveredar pelas questões técnicas. Quero falar de linguagem. Em seus mais de cem anos de história, o cinema desenvolveu linguagens e técnicas que dialogaram intensamente com a tradição da arte no Ocidente. Por mais que a leveza, a facilidade de operação e edição e, principalmente, o preço dos equipamentos digitais de captação e edição de imagem possam facilitar o desenvolvimento de novas possibilidades criativas, é ingenuidade achar que o fato de filmar em digital universaliza o ofício de cineasta e libera o ato de produzir imagens, da necessidade de pensamento e inteligência de organização. Por volta de 1960, começaram a surgir câmeras mais leves, a lente zoom tornou-se uma epidemia, foram fabricados negativos mais rápidos, surgiu o som direto, e todas essas inovações geraram intensas discussões a respeito de um novo cinema que surgia. À época, o poeta e cineasta francês Jean Cocteau declarou sua intenção de abandonar o cinema , pois este tornara-se um ofício para muitos e não mais exigia a complexa formação técnica e estética de antes. Em suma, qualquer um podia fazer e, portanto, aquilo não mais o interessava.

Apesar do tom de blague e um toque de mau humor tipicamente francês, a afirmação de Cocteau guarda uma certa verdade. Já ouvi de alguns cineastas afirmações bem parecidas como justificativas de seu desinteresse pelo cinema.

Assim, gostaria de comentar algumas reflexões de Roberto Rosselini, feitas ao longo de sua generosa vida, que nos podem ajudar a compreender o momento de transformação porque passa a atividade cinematográfica.

Quando terminou a 2ª Guerra Mundial, em 1945, a Itália estava em escombros físicos e morais. Humilhada pela derrota, pela ocupação estrangeira e pelos anos de ditadura fascista, o país precisava reencontrar na riqueza de sua tradição cultural, no fundo de sua alma, as energias que possibilitassem o seu soerguimento. Apesar de toda a destruição, continuava viva essa riqueza e era preciso trazê-la à tona.

O cinema tinha então cinqüenta anos, e um determinado modo de produção e de estética já havia se tornado hegemônico. Era a máquina industrial do sistema cinematográfico americano que se transformara na arte mais popular do século XX. Aquele modo de produção era "O Cinema". Tudo o mais, a periferia. E talvez essa consciência periférica, na Itália do pós-guerra, que tenha levado Rosselini às concepções e idéias que fizeram do neo-realismo italiano um movimento fundamental no cinema moderno.

O neo-realismo pôs o cinema na rua. Filmando em locações, longe dos estúdios, com atores naturais, com um mínimo de luz, equipes pequenas e, principalmente, desenvolvendo uma dramaturgia entranhada no cotidiano do homem comum, com seus anseios e temores, os pequenos dramas da vida sendo a matéria prima dos filmes.

Roma Cidade Aberta (1945) começou a ser planejado, quase clandestinamente, durante a ocupação alemã. Depois, com o final da guerra, as filmagens prosseguiram sob condições ainda adversas. Rosselini, sem dinheiro, tomou emprestado até conseguir concluir o filme. Quando ficou pronto, um distribuidor que se comprometera a adiantar algum dinheiro à produção para o pagamento de dívidas, após a projeção da 1ª cópia, disse que não havia nada a adiantar, pois aquilo que vira não era um filme. Acontece que "aquilo" era justamente uma nova forma de produção e de linguagem e viria causar grande impacto em todo o cinema. Modo de produção, mise-en-scène, estilo de interpretação dos atores, tudo era novo. O efeito do filme na Itália foi imediato e tremendo. Logo outros cineastas e produtores foram retomando a produção, mostrando aos italianos a face com que emergiam da guerra em direção ao futuro. A vida e o cinema prosseguiam. Rosselini, anos mais tarde, comentaria que, no neo-realismo:

"Precisávamos inventar uma técnica que nos permitisse dar a palavra a todo o mundo, possibilitar o aparecimento de uma geração de cineastas com novas idéias e concepções de cinema. Quando levávamos a câmera para as ruas, estávamos não somente contribuindo para a criação de uma nova linguagem, como também alterando as regras econômicas em vigor."

Havia um modo de se fazer filmes baratos e novos em termos de linguagem e produção, perceberam os jovens cineastas da época, em várias partes do mundo. Se hoje, tudo isso parece simples, quase comum, câmeras nas ruas e atores não profissionais, é bom lembrar o que era o cinema à época, e o que representava o modo de produção e a estética neo-realista como forma libertadora de realização cinematográfica, para o cinema moderno e as cinematografias periféricas. Dizia, ainda, Rosselini que o cinema tem um compromisso social enorme, não ideológico, e que era preciso relacionar um filme com o conhecimento, com a sociedade, gerar o confronto de idéias.

E qual seria o ponto de contato do neo-realismo italiano com a onda do cinema digital? É a percepção de que o essencial não é discutir exclusivamente a técnica, o número de CCDs, as plataformas de edição, a capacidade dos softwares mas, sim, colocar todo esse aparato a serviço de concepções claras e precisas a respeito daquilo que se quer realizar no cinema. Câmera ou sistema algum de edição fará por nós aquilo que não trouxermos de nosso diálogo com a tradição cinematográfica, aquilo que não descobrirmos e inventarmos durante nossa aventura cinematográfica.

É preciso pôr a técnica a serviço do cinema. Escolher os sistemas e os modos de produção mais adequados às realidades estéticas e econômicas, às necessidades dos filmes. Criar conhecimentos, alterar paradigmas, vencer o fetiche tecnológico.

Se, como afirma Heidegger, "A técnica não é meramente um meio. A técnica é um modo de desvelamento...", é preciso não esquecer a lição de Rosselini e manter o cinema próximo ao projeto de conhecimento do mundo e do Outro, e nunca permitir que o fascínio pela técnica em si nos leve a substituir a pergunta ontológica - " o que é ?" - nascida do espanto e da admiração pela simples interrogação acerca dos modos de funcionamento e processamento dos sistemas.

A vontade de desvelamento, de revelação, está nas origens do cinema, tanto no ato emocionado de registrar a realidade com os irmãos Lumière, como nas fantasias das artes mágicas de Meliès. Essas duas vertentes originais poderão agora ser reinventadas com o surgimento do Cinema Digital e suas múltiplas possibilidades.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HEIDEGGER, Martin. "A Questão da Técnica". In: Ensaios e Conferências. Petrópolis: Editora Vozes, 2002.

LEITE, Ricardo Gomes Leite. "O Testamento de Rossellini. Entrevista a Ricardo Gomes Leite". In: Jornal do Brasil, 06 de julho de 1977.

OLIVER, Jos e GUARNER, Jose Luis. Diálogos casi socráticos con Roberto Rossellini. Barcelona: Editorial Anagrama, 1972.

SÁ CAVALCANTI, Márcia C. de. "Arte e Técnica". In: Revista Filosófica Brasileira. Rio de Janeiro: Departamento de Filosofia-UFRJ, 1998.

VIRILIO, Paul. A Máquina de Visão. Rio de Janeiro: José Olympio Editora,1994.