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ENTREVISTA
ROBERTO MOREIRA


Angélica Coutinho
Diretora do Curso de Cinema da Universidade Estácio de Sá

1) Por que você optou por fazer seu filme em digital?

Filmar em digital hoje é o equivalente a usar a câmera 16mm e o Nagra nos anos 60. A equipe fica menor, gasta-se menos e, sobretudo, permite ao diretor se concentrar em dirigir os atores e resolver a decupagem. Com o digital sobra mais tempo na filmagem, e a atividade no set se transforma em um momento de criação. O aparato tradicional do cinema traz consigo uma pesada burocracia criativa. Alguns diretores conseguem manobrar essa parafernália toda a seu favor, eu não. Outra razão é que gosto de tecnologia e de estar na ponta. Em poucos anos, a película vai mesmo acabar.

2) Em que o suporte contribuiu para a realização?

Permitiu um trabalho minucioso de direção de atores e priorizou o ator como elemento mais importante do set. Foi a técnica que se adequou aos atores, e não o contrário.

3) E você acha que houve alguma perda? Algo que a película oferecia e você teve de abrir mão em função de trabalhar em digital?

Não. É claro que um filme com reconstituição de época em digital não faz muito sentido, mas um drama que é levado pelos atores só tem a ganhar.

4) Que tipo de equipamento você usou?

A câmera Sony pd150.

5) Como foi o processo de transferência para película?

Muito bem realizado pela Teleimage. É importante ressaltar que a imagem do filme perdeu 200 linhas por conta do formato da imagem 16x9. E a qualidade é muito boa.

6) Você acredita que fazer longas em digital pode se transformar em uma tendência do mercado?

No curto prazo já é uma tendência. A Globo tem trabalhado com a alta definição (HD), e os resultados são muito bons. Um filme como "Justiça" mostra como a HD também pode ser usada até num documentário. A longo prazo a película vai acabar. Até o final do ano, a Sony lança um modelo de câmera HD portátil, na faixa dos 4 mil dólares. E a Panavision já está projetando câmeras com definição próxima da película. Ao mesmo tempo, começam a surgir iniciativas de distribuição digital: só aqui, temos a Teleimage e a Rain Networks. No Canadá, recentemente, a Ex-Centris, empresa de Montreal fundada por Daniel Langlois, anunciou um sistema de projeção de alta qualidade na faixa de 50 mil dólares. Tudo isso para dizer que o digital é inexorável.

7) Você aconselharia o formato digital para quem está começando a produzir agora?

Com certeza. Se eu estivesse saindo da faculdade, me juntaria com uma equipe de amigos e faria, de cara, um longa. Quem não realiza hoje é porque não quer... e quanto mais se produz, mais se aprende. Outra coisa que o aluno precisa levar em conta é o seguinte: quem está saindo da faculdade vai presenciar essa mudança do analógico para o digital, como eu presenciei o fim das moviolas. E os alunos que estão entrando no curso agora talvez nem trabalhem mais com película no dia-a-dia da profissão. Então, é melhor se ligar e olhar para a frente e não, com nostalgia, para trás.