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Entrevista
Silvio Tendler

Denise Barreto
Jornalista com especialização em roteiro de cinema e professora do Curso de Comunicação Social da Universidade Estácio de Sá

1) Você deixou a faculdade de Direito para fazer cinema. O que te levou a esse caminho?

Sempre sonhei ser artista. Como bom jovem de classe média, temia não ter um diploma universitário "nobre", daí fiz Direito. Mas o que me levou a abandonar o curso foi a ditadura, que me mostrou a inutilidade dele em um país onde não se cumpriam as leis – visão tanto quanto imediatista de um jovem de classe média. Por isso, fui para França, onde fiz uma graduação em História – território ao qual me dedico até hoje.

2) Você é o que podemos chamar de "carioca da gema". Nascido na Tijuca e criado em Copacabana. A cidade que você vive interfere de alguma forma em seu trabalho?

Graças a Deus sou carioca da gema. Meu humor é carioca e o Rio tem tudo a ver comigo

3) Certa vez te chamaram de "o cineasta dos sonhos interrompidos". Isso por conta dos personagens que você mostra em seus documentários, como Jango, JK, etc. Você concorda com isso?

Sim. Acho uma bela definição de minha obra formulada pelo Arnaldo Carrilho.

4) O que mais te atrai a fazer documentários?

O confronto com o real, a memória, a história.

5) Você acaba de lançar Glauber, O Filme - Labirinto do Brasil, que demorou quase vinte anos para ficar pronto. O que mudou do projeto inicial para o que a gente vê na tela?

Tudo. O filme mudou de público-alvo vinte anos depois e, portanto, mudaram os objetivos, a estética e a própria visão de Glauber.

6) Você assina o roteiro do filme. Você segue à risca o roteiro do documentário na hora da montagem?

Não escrevo roteiros. Eles nascem na hora da edição a partir de uma pesquisa documentada que baliza as idéias.

7) Além de você, temos, no Rio de Janeiro, pelo menos mais dois documentaristas de talento: Eduardo Coutinho e João Moreira Salles. Quem mais você citaria como exemplo de bom documentarista?

Wladimir Carvalho.

8) Até certo tempo atrás, documentário não era um tipo de filme que agradava grandes platéias. Hoje tem festival dedicado ao gênero, vários documentários em cartaz. A que você atribuiu esse interesse pelo documentário?

O público brasileiro não tem, nem nunca teve, preconceito contra documentários. Fiz muito sucesso com Os Anos JK e Jango.

9) Uma das grandes discussões sobre documentário é saber se você se distancia do personagem a ser retratado na tela ou se invade o personagem a ser filmado. Como você analisa essa questão?

Sou um apaixonado por meus personagens. Sou seu "advogado" quando monto um filme e não tenho distância nenhuma.

10) Quais são seus novos projetos?

Milton Santos, sobre o geógrafo, e Utopia e Barbárie, sobre o que é "ter dezoito anos em 1968".